Mês do Orgulho PCD: a urgência de passarmos da caridade para o direito 

Por André Naves
 

Quando pensamos no mês de julho, poucas pessoas no Brasil sabem que o período é dedicado, globalmente, ao Mês Internacional do Orgulho da Pessoa com Deficiência. A escolha do mês não é aleatória: ela celebra a promulgação da Americans with Disabilities Act (ADA), em julho de 1990, nos Estados Unidos. A ADA foi o primeiro grande marco jurídico ocidental a proibir, de forma sistêmica, a discriminação contra pessoas com deficiência.

Mais do que uma efeméride jurídica, o conceito de “Orgulho PCD” carrega uma revolução cultural profunda. Ele inverte a lógica histórica do olhar social sobre a deficiência. Tradicionalmente, fomos condicionados a enxergar esses corpos e mentes sob a ótica do “modelo médico” ou do “modelo da caridade” – como se a deficiência fosse uma tragédia individual a ser lamentada, um “fardo” ou um objeto de pura assistência e benevolência.

O Orgulho PCD diz o oposto: a deficiência é uma característica da diversidade humana, e a verdadeira barreira não está no sujeito, mas em uma sociedade que escolhe se manter inacessível. Ter orgulho, nesse contexto, não é uma celebração vazia, mas um ato político de afirmação de dignidade. É a recusa veemente de se esconder ou de pedir desculpas por existir em estruturas que insistem em nos excluir.

Sob a perspectiva da economia política, essa mudança de mentalidade é urgente. Quando uma sociedade trata a inclusão como “caridade”, ela cria políticas públicas assistencialistas, periféricas e frágeis. Quando passamos para a lógica do direito e da potência, percebemos que a acessibilidade é um investimento socioeconômico com altíssima taxa de retorno.

Ignorar o potencial de mais de 1 bilhão de pessoas no mundo – e de quase 19 milhões de brasileiros – por puro capacitismo estrutural é um erro de gestão catastrófico. Ambientes que acolhem a diversidade de perspectivas são comprovadamente mais criativos, inovadores e resilientes.

Celebrar o Mês do Orgulho PCD neste julho de 2026 nos convida a uma autocrítica severa. Nossas empresas, escolas e espaços públicos estão desenhados para acolher a inteireza humana, ou continuam operando na lógica da exclusão maquiada por discursos bonitos? A verdadeira inclusão dá trabalho, exige escuta e gera desconforto. Mas é só através desse encontro com a pluralidade que podemos construir um futuro genuinamente justo.

*André Naves é Defensor Público Federal formado em Direito pela USP, especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social; mestre em Economia Política pela PUC/SP; Cientista Político pela Hillsdale College e doutor em Economia pela Princeton University. Comendador Cultural, Escritor e Professor.

Artigo enviado por Andreia Constâncio – publicado por Diva Bellaver – jornalista RP 00066/72/SC

Diva Bellaver

Jornalista

Sou jornalista formada pela Celer Faculdades de Xaxim e, desde 2008, atuo no jornal Tribuna da Gente como fotógrafa e editora. Com mais de 15 anos de experiência na área, busco sempre transformar histórias e momentos em imagens e palavras que conectam e informam o público.

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